Quarta-feira, 9 de Fevereiro de 2011

BOURBON

 

Acordava uma vez mais,  de novo, para um novo dia, era o dia quinze mil seiscentos e quarenta e cinco se a memória não lhe falhava, contava assim o tempo de vida, o existido e a projecção do por existir, apenas um calendário diferente na soma do tempo, ou talvez melhor dizendo, na perda dele. Bem o sabia, cada dia acumulado, seria um dia a menos para existir, mas não se pode querer tudo, e de qualquer modo, devia acabar por ser justo.
Num ritual sempre igual, olhos abertos focando lentamente o tecto do quarto tentava reconhecer as manchas de humidade junto da janela assim como a pouca mobília do quarto, uma secretária daquelas que se fecham como uma persiana que desliza numa curvatura até à base em madeira escura, uma cadeira acompanhando estilisticamente a secretária com um assento em couro vermelho e um guarda fatos em tudo igual ao já descrito com três portas e um espelho de corpo inteiro no meio.
Como sempre, de há muito tempo, num primeiro instante nunca se lembrava onde estava, nos quinze mil seiscentos e quarenta e cinco dias já acordados, muitos foram os lugares onde despertara, muitas foram as camas onde se horizontalizara, só ou acompanhado, em vários meridianos e paralelos diferentes.
Soerguido o seu ainda jovem corpo, sentado na cama na posição de lótus, como sempre incendiava o seu primeiro cigarro “Camel”, cuja incandescência reflectia no espelho do guarda-fatos defronte à cama a sua primeira imagem do dia. E lá se lembrava de onde estava, aquele não era o seu lugar, a sua casa habitual, um olhar para o  lado direito da cama, quase o faz engolir o cigarro de surpresa, ao ver o corpo daquela mulher ali deitado ainda a dormir, não se lembrando sequer de como ambos os corpos ali foram parar. Levantou-se, agora num salto e abriu a janela que dava para uma movimentada rua da cidade do Porto, agora deserta por ser domingo. Do seu lado direito podia ver as traseiras do edifício da câmara municipal . Com a janela ainda aberta, olhou de novo para aquele ser a dormir. A sua roupa não espalhada, como se espalham em actos de êxtase incontidos de incontrolável desejo e paixão, mas bem dobrada, o casaco pendurado numa cruzeta, e olhando o espelho de novo, constatava que continuava com as calças vestidas. O peso e dor na cabeça, assim com um hálito forte a bourbon ressacado provavam o excesso cometido. Já vestido e caminhando sozinho por aquela fria manhã de domingo na cidade  , apesar de verão. Golas levantadas e mãos nos bolsos, apenas se recorda de ter entrado naquele bar, na zona antiga da cidade, fugindo de uma multidão folionicamente enlouquecida com martelos de plástico grilantes a martelar a torto e a direito, onde umas colunas de som debitavam um ""Round Midnight" pelo sax de Dexter Gordon, um balcão imenso onde um barman limpava copos e no canto do balcão, uma mulher,  aquela  que dormira a seu lado e o momento em que, com um gesto de mão,  reconhecido por quem pelo mundo fora frequenta bares, segurando um copo de bourbon, lhe fez um brinde...
 
música: Dexter Gordon, Round Midnight
publicado por Jorge Santos às 17:10
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Quarta-feira, 17 de Novembro de 2010

IDA SEM VOLTA

Falta de tempo e inspiração tem-me levado a deixar o "conteúdos" um pouco abandonado. Por isso vou Fazer a reedição de alguns Posts que mais gostei, até voltar a dar ao "conteúdos" o ritmo que tinha antigamente.

 

Texto escrito para o 6º jogo das doze palavras do EREMITÉRIO, desta vez com sessenta palavras, as doze de cada um dos cinco jogos anteriores.

 

A mão esquerda acendia o isqueiro enquanto a direita protegia, em concha, a ténue chama, de um vento ausente, apenas um gesto de mãos, um hábito consumido nos anos da vida. Com efeito o calor era muito em Fevereiro a sul do equador, e, este Carnaval, estava a ser excepcionalmente quente. Nem a aproximação da noite com seu luar envolvente apaziguava os efeitos diurnos de um sol avassalador.
Com o cigarro preso nos dentes e os olhos semi-cerrados pelo fumo que lhe queimava a retina, abriu as portadas de madeira velha e já quase sem cor naquele velho hotel já não distante do rio, de par em par. O negrume cintilante e envolvente da noite lentamente pousava sobre a cidade. Do edifício mais alto deixava-se escorregar até tocar a rua, descendo por ela, por todas elas até cobrir o cais, os barcos o rio. O Cruzeiro do Sul, lá do alto do céu imenso, inaugurava assim a noite de terça-feira gorda, a ultima noite passada naquele lugar.
Estava na hora de voltar, retomar raízes que um dia fora obrigado a arrancar. Ninguém o obrigava a isso, assim como ninguém o levou a se afastar. Era uma força ou vontade que o impelia e simultaneamente amedrontava, o medo e o anseio de reabrir novamente aquela caixa de chocolates onde escondera todos os sentimentos perdidos…
De braços suspensos, cruzados sobre a cabeça, acompanhava a dança de luzes que surgiam saltitantes entre o néon da noite. Nesse momento surgem das suas costas enlaçando o seu ventre, o envolvente abraço de Alice. Olha de lado para o espelho em cima da cómoda, e, percebe na penumbra, a silhueta do corpo dela colada no seu, despertando morna e languidamente do sono bom. O sono do amor. Vem tomar banho comigo sussurrava Alice no seu ouvido enquanto rodava o corpo num movimento preciso encaixando-se no dele num desejo crescente. Assim caminharam colados enlaçados, encarnados, pelo escuro do quarto, apenas duas sombras de amor se amando sob a água que jorrava do duche, refrescando seus corpos, e retardando a imortal fusão. Ambos se amavam com urgência, em sobressalto, com medo do amanhã chegar, mas chegou, e, de manhã bem cedo, em silencio e lágrimas olhou uma ultima vez para Alice dormindo nua, bela, olhou como se fotografasse, para nunca mais esquecer… até um dia.
No momento em que o avião, sobrevoava a cidade, logo reconheceu aquela cor a inundar seu olhar, estava tudo lá, a baía, a rosácea na igreja onde fora baptizado. Sentia que seu coração nefelibata estava de novo em casa, no seu país.
Mas depois, já com os pés bem assentes no chão, olhava e via, via e olhava de novo não querendo aceitar. A tempestade humana, a loucura, o lodo, a morte, o ostracismo pairavam por todo o lado. Não eram culpadas as pessoas do povo que continuavam apesar de sofredoras, estóicas e alegres, valente e corajosas, sempre dispostas a cada novo dia, a lutar por uma vida melhor. Era como sempre fora, a malha, a teia de usurpadores que continuavam a ocupar despoticamente as cadeiras do poder. Na realidade tudo se resumira a trocar uns por outros, aparentemente diferentes, mas de idêntico recheio. No meio daquele inferno, reencontrou nas escadas da casa que um dia fora a sua, agora gasta e sem cal, o seu velho amigo Abel. Com a ternura das palavras que sempre usara, fez-se de novo seu conselheiro como em menino fazia e entabulou uma conversa, a derradeira entre eles.
-Menino, porque voltou? Aqui nada é o mesmo nas suas recordações, pode andar por aí a procurar traços que façam reviver as suas memórias, mas será um esforço vão. Ouça o meu conselho, faça um casulo onde possa guardar tudo o que um dia aqui viveu, e guarde-o bem junto do coração, pare de vasculhar o passado e aprenda a viver um dia de cada vez. Vá sem pena, mas cheio de esperança, não pense mais “nisto”, não pense mais no velho Abel. Quando a amizade é verdadeira não existe distanciamento possível, pois a verdade desta é o exponente máximo do relacionamento humano. Mas antes de ir faça duas coisas, jogue flores na sua praia favorita, aquela mesma onde ficava vendo-o brincar, por todos aqueles que aqui um dia amou e por aqueles que não desistem de fazer deste país um lugar melhor para viver, e, compre uma tapeçaria da savana, com um leão vigilante debaixo de um embondeiro, para nunca se esquecer quem é nem de onde veio.
Dito isto ergueu o corpo amortecido na bengala e tocando-lhe com o cotovelo disse, venha o cacimbo (orvalho) está a cair e a Susana que hoje está de bom humor, o que nela é muito variável, preparou-nos o jantar e vamos juntos comungar de um dos prazeres da criação feito por suas mãos. A maravilhosa Muamba de galinha…

Filipe obedeceu a Abel foi-se embora sem olhar para trás.
Com a alma do tamanho do mundo, olhou sempre em frente, e mais e mais, e meteu de tanto andar, de tanto ver, o mundo inteiro dentro da alma e era quase feliz.
Mas a sua felicidade deparava-se ainda com uma obstrução, a falta do amor verdadeiro, reconhecido, vivido e sentido. O amor de Alice!
E sem pedir licença, mas seguindo um método e uma linha com determinação, foi buscar para morar o que faltava no seu coração...

Tantos anos passaram na sua vida, não sabe quantos, há muito se esquecera de contar, vive o que tem a viver, por quem tem a viver, com quem tem a viver, com toda a vulnerabilidade. Não há passados, apenas, como sempre, o hoje está presente, só assim, pode recordar o que viveu com um sorriso. E é assim que quer terminar, disso não tem duvida, com um sorriso, ali mesmo onde agora está, um alpendre velho, de uma casa de madeira velha, degrau a degrau bem contados são cinco até ao areal, a 30 metros do mar azul, junto ao pontão que com o seu farol velho mas imponente e vertical, afastam do perigo cada vapor navegando em boa viagem, ao largo daquela “sua” ilha, pequena, mas com muito Sol. Mas isso será num futuro qualquer pois nesse momento cada criança corre pelo areal, são quatro, filhos de filho, e filhos de netas, a pele queimada pelo sol gritando, avô, avô…
A voz de Alice, envolvente, aquele amor erodido que um dia ambos julgavam ter perdido, fê-lo emergir do seu mar de pensamentos, interrompendo suas cogitações:-Filipe meu velho traz as crianças e venham jantar.
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música: Bachianas Brasileiras(Heitor Vila Lobos)-Brandford Marsalis
publicado por Jorge Santos às 19:40
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Sexta-feira, 1 de Maio de 2009

A BOLHA

Todos nós, somos seres existentes. Nascemos, e adquirimos uma existência para ser usufruída até que termine. Somos tudo e nada por inevitabilidade, mas desistentes, apenas por opção.

Não consigo imaginar-me a viver sem mim, longe dessa bolha que me rodeia e onde existo, onde o amor próprio , auto-estima e autoconceito me unificam no que sou: Livre! Apenas em liberdade, consigo ser feliz e fazer outros felizes, pois essa felicidade é consequencia do acto humano livre.

Cerquem-me, e eu fugirei como a pacaça acuada.

Deixem-me livre que dormirei pachorrento como o leão sob o sol da savana. 

música: BEATLES-ALONG AND WINDING ROAD
publicado por Jorge Santos às 15:30
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Sábado, 7 de Fevereiro de 2009

FILHO DE PAI SEPARADOS

                                                   

Uma imagem surge espontaneamente, a figura suja de olhar triste de Oliver Twist a entrar no orfanato, nesse belo livro de Dickens. Mas apenas a imagem surgida ou sugerida, tem algo a ver com a situação proposta no titulo desta página, e tem algo a ver porque, o mesmo olhar perdido, confuso, em desespero, passa um pouco, senão por todos, aqueles miúdos, que em determinado dia, envoltos numa história mais bem contada a uns do que a outros, mas a mesma a todos, ouvem, com os olhos cheios de lágrimas, ou se contidas encharcados em dor por dentro, aquela noticia que nunca imaginariam lhes fossem dizer: “vamo-nos separar”, e a primeira pergunta que fazem é, mas porquê? E de seguida ouvem outra resposta que entendem ainda menos: “ já não nos amamos”, aqui a perplexidade passa a ser total ao ponto de responderem: “ mas eu amo-vos e vos amarei sempre, vocês são os meus pais”….
 
Isto é apenas o início de um longo processo, na maior parte das vezes de confusão na cabeça de uma criança, pois mal ela sabe ainda pelo que tem de passar. Muito provavelmente irá conhecer lugares novos com nomes como, “tribunal, comissões de protecção à criança e advogados, aprendendo que serão estes na maior parte das vezes e não os pais a definirem o rumo da sua vida.
 
“Rumo da minha vida” pensam os filhos, mas o meu rumo estava tão bom, tinha os meus amigos, os colegas da escola, os meus irmãos, o meu pai e a minha mãe, que rumos são estes?
É aqui que apreendem que nunca mais nada vai ser como antes. É aqui que apreendem que mesmo tudo correndo pelo melhor vão passar a viver exclusivamente com um dos progenitores e a conviver ciclicamente com o outro. É aqui que apreendem um novo calendário para a sua vida, um calendário marcado por quinzenas, com fins de semana alternados, pois passam a ter duas casas, as “suas” onde vivem todos os dias e as outras, do pai ou da mãe onde vão passar fins de semana, assim como datas festivas e férias previamente combinadas. Isto abordando o assunto pelo lado optimista. E é aqui que apreendem também que outras novas pessoas poderão fazer parte das suas famílias, que os seus pais podem voltar a casar e ter inclusive outros filhos, seus irmãos, sem que alguma vez os tenham deixado de amar.
 
 E é assim que descobrem que outras pessoas se juntaram, outras crianças nasceram e a tristeza sem fim inicial na dor da separação pode, como muitas vezes sucede, transformar-se em novo amor familiar onde todos têm o seu lugar afectivamente efectivo. Outros desafios surgirão nas novas vidas das novas famílias, desafios esses em que o amor, mas não só, a coerência, a lucidez, e a empatia, têm que estar presentes, assim como presente deve estar a noção, de que no seio de uma nova família, assim como no seio de uma família tradicional, ou mono parental, o respeito pelo ser, individuo, que em cada um de nós existe, quer tenhamos oito ou quarenta e três anos, deve ser sempre respeitado, tendo por base um ditado popular que eu mesmo alterei: “Todos os gostos se discutem, desde que se respeitem.”
 
Nós pais, devemos enquanto pudermos aproveitarmos ao máximo para amarmos os nossos filhos e crescermos com eles o mais que pudermos.
 

Enquanto são pequenos, os nossos filhos vivem de costas voltadas para o mundo e de frente para nós, e, somos nós, pais, que altruisticamente os vamos ensinando a ficar de costas viradas para nós, mas triunfantes e felizes de frente para o mundo.

música: Slije Nergard- two sleepy people
publicado por Jorge Santos às 23:57
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Segunda-feira, 24 de Novembro de 2008

DESAMOR

 

O dia que começa é anunciado pelo ruído musical de um pássaro madrugador, o sol sorridente à minha frente estende os seus raios de madeira azul sobre o seu corpo nu repousando adormecido junto à lareira onde uma réstia do fogo que momentos antes incendiara em paixão, ainda aquece. As formas do espaço novo, envolvente, vão-se definindo com a nossa luz os nossos aromas, naquilo a que chamamos de nosso lar.
A perfeição de um momento, somado a tantos outros, parecia trazer de novo a magia que só quem ama reconhece, de que é possível e concretizável a vontade do amor em construção. Mas, no fundo, ninguém se reconhece por trás desse amor, sentimento tantas vezes a camuflar a verdadeira humanidade em cada um. Queria antes uma amizade sublime e sincera, onde o amor não pudesse incendiar-se nas fogueiras da paixão para depois, de achas incandescentes, esturricar a pessoa em cada amante, mas onde surgisse da amizade pura,  verdadeira, como o desabrochar da flor pela manha, depois de sorvidas as gotas do orvalho.
Já não se ouve agora a cantiga do pássaro madrugador, já não restam corpos iluminados pelo sol que lá permanece com raios de madeira azul. Está frio, gélido, de um sentimento, prendem-se sincelos anunciando um congelamento glaciar por mil anos, há que hibernar para que um dia, a esperança no reflorescimento se concretize…
 
Uma lua azul risonha, também de madeira, resta junto ao sol, intrusa falaz, que era mais bonito sozinho.
música: Mozart, Pano concerto in c major
publicado por Jorge Santos às 20:37
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Sexta-feira, 31 de Outubro de 2008

...

 

A liberdade, pairava-o em breves momentos, tornando sublime o pormenor.
O momento sem tempo ou espaço, onde o filho o fita com amor um ultimo instante, antes de cerrar as janelas da alma e deixar-se levar por Morfeu, que o afasta da escuridão do quarto para prados de sonhos azuis.
Olha o filho a dormir, segurando a espada de luz jedi, Skywalker, tão Luke quanto ele, deixando-se flutuar, na beira da cama, olhando aquele ser, seu filho, seu maior sentimento de amor. Nesse momento, pensa, pensa que não sente mais a harmonia das horas, um dia juradas eternas, felizes. O galanteio do puro gesto se ocultou algures no tempo, sempre o tempo, mas não se recorda mais do tempo. Com medo, sabe como batem as ondas de dor, a recusa, o esforço em manter uma sintonia, que se desvanece. Apenas o seu bailarino no justo sono cresce, e por ele vai resistindo, à falaz capitulação.
 
 
Texto escrito para o sétimo jogo de palavras do Eremitério
 
música: Jorge Palma-Frágil
publicado por Jorge Santos às 22:58
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Segunda-feira, 27 de Outubro de 2008

VIDA

 

Vidas, encontros, desencontros, uns e outros, cruzamentos, linhas perpendiculares, Linhas paralelas, felicidades, tédios, aconchegos, desassossegos, luz, harmonia, para no fim a capitulação encher de escuridão os que eternos se desejaram amantes.
Amante é quem exprime o maravilhoso acto de liberdade, como um bailarino rodopiando num “pas de deux” feito acto de amor com a sua bailarina. Amantes, são, quem souber ser, além de um sentimento, um irradiar de cor, em não perfeita, mas cúmplice sintonia, não sem esforço, onde cada gesto, por mais ínfimo que possa parecer, tenha sempre um superior valor, a qualquer galanteio, puramente plástico e falaz.
 
Texto escrito para o 7º jogo das 12 palavras do Eremitério
 
música: Max Steiner, As Time Goes By
publicado por Jorge Santos às 13:54
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Segunda-feira, 20 de Outubro de 2008

VIAGEM

 

Desde muito novo, teve a certeza, quase, se não mesmo pura, que o deslocamento, a mudança do espaço físico, em períodos, ciclos de tempo, na forma de viagens, iriam ser, o factor determinante e predominante, enquanto o seu momento existencial durasse.
Não sabe se a vida foi acontecendo, assim, e, nas suas vicissitudes deixou-se embalar, aceitando-a como é, ou pelo contrário, fez com que assim passasse a ser, uma obstinação, de não querer enraizar-se em lugar algum, e, simultaneamente em todos, de uma só vez, desde, aquele dia, aquele momento, aquele instante, em que lhe arrancaram a raiz mais funda, algures datado num tempo humano, no ano de mil novecentos e setenta e cinco.
 
Viagem, uma palavra, sempre bem soada nos seus pensamentos, ao contrário do imobilismo, onde por vezes, amorficamente, se estatelava, e se deixava ficar, a engordar tecidos, ate quase rebentar. Mas, depois, vinham sempre as campainhas, os alarmes dos faróis, quais roncas em dia de nevoeiro, a mandar os seus avisos, e aí recomeçava a viagem, dentro de si, para fora de si, para fora de tudo, procurando, buscando de novo, o novo, ou, inclusivamente retomando algo que ficara pendente, em gestos ocultos, e ternuras escondidas, e palavras a medo mal titubeadas.
A melhor maneira é ir, sem parar para olhar para traz, correndo o risco de ficar a tal estatua de sal, perdendo de vez o passado, e não almejando nunca o futuro.
Filipe sabia isso, o seu destino era ir e então foi…
música: Bachianas Brasileiras-Heitor Villa Lobos
publicado por Jorge Santos às 01:26
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Quarta-feira, 10 de Setembro de 2008

OBRIGADO

 

 

 Faço hoje a reposição de mais um Post publicado em Agosto do ano passado. Assim, devagarinho, o Conteúdos vai ficando com tudo o que lhe pertençe.

 

OBRIGADO!
 
 
Viajar naquele autocarro, àquela hora da noite, com as ruas completamente desertas, fazia Ricardo sentir-se ainda mais estranho naquela cidade estranha. Era noite de jogo da selecção Brasileira e, quando tal acontecia, as pessoas recolhiam-se, bem cedo, a suas casas para não perderem a transmissão do jogo pela televisão. E, dentro daquele autocarro, ouvia-se, somente, o barulho da chuva batendo nas janelas meio embaciadas.
 
Também Ricardo se dirigia para casa mas por razões diferentes: ia simplesmente para casa após mais um dia, igual a tantos já passados, numa rotina que não tinha desejado mas para a qual contribuíra com a decisão de regressar ao seu país. Era a rotina de quem não tem nada para fazer senão aguardar o dia da partida, com hora marcada.
 
E, naquela monotonia de um autocarro vazio, viajando de noite, numa cidade vazia, aquele "obrigada", que Vilma lhe dissera, momentos atrás, não lhe deixava o pensamento.
 
OBRIGADA!...Porquê?
 
Quando Ricardo chegou a Manaus, sentiu uma alegria enorme pela perspectiva de iniciar um novo viver que marcasse o início de uma etapa, importante, na sua vida; a busca de uma certa libertação e tentativa de auto-realização.
 
A pouco e pouco, porém, essa alegria inicial começou a dar lugar a uma saudade sem fim, saudades, principalmente, de Cristina que tinha ficado longe na distância mas cada vez mais perto no seu pensamento, perto na obsessão que toda a saudade produz.
 
E foi, então, que conheceu Vilma e, à medida em que a ia conhecendo melhor, começou sentindo que uma luz, pequenina, tinha começado a brilhar em seu coração, tornando-o num ser mais alegre.
 
Mas que sentia por Vilma ? Amor?
 
Não, não era amor: era um gostar muito forte, mas sem amor ou paixão, um sentir-se alegre e feliz quando junto dela; um desejo forte de toca-la, abraçá-la e, porventura, beijá-la.
 
"Obrigada!"
 
Naquele fim de tarde estando os dois numa esplanada junto ao rio Vilma com uma voz triste perguntou:
 
-Porque Você vai embora?
-não gosta daqui?
 
Procurando olhá-la nos olhos, Ricardo respondeu fugindo à resposta desejada:
-mas eu gosto daqui. Aqui tenho família, aqui mora você, e você esta aqui comigo…
 
 
 
Vilma ficou olhando, de um modo carinhoso, mas interrogativo, e percebendo a pergunta, que iria ser feita, Ricardo se antecipou:
 
-Mas, apesar de gostar de você, vou voltar, amo Cristina.
 
Sentindo que tinha magoado Vilma, que escutou aquelas palavras olhando, o rio Negro acariciando os últimos raios de sol, Ricardo, entrelaçou os seus dedos nos dela, puxou-a para si e beijou-a, meigamente, no rosto onde uns olhos brilhavam pelas lágrimas a custo reprimidas.
 
"Obrigada!"
 
A chuva cessara e a pequena viagem tinha terminado. E fazendo, a pé, o resto do percurso para casa, Ricardo relembrava aquele percurso que, igualmente a pé, fizera com Vilma da esplanada até a Parada do autocarro e do que ali se passara.
 
Tinham caminhado, todo o tempo, em silêncio e, depois, parados, um em frente do outro, ficaram-se olhando, sem nada dizerem, até que, num impulso, Ricardo a envolveu nos braços e a beijou longamente, num beijo que não queria terminar, mas que a chegada do autocarro pôs fim. Depois, outro beijo, beijo carinhoso e rápido: o beijo do adeus:
 
-Até amanhã, Vilma- e Vilma não deixando de segurar a mão de Ricardo e olhando-o bem nos olhos, apenas respondeu:
 
-"Obrigada!"
 
Pensando, ainda, naquele "obrigada", procurando o sentido exacto da sua significação, Ricardo ouviu uma súbita manifestação ruidosa, de alegria, que vinha das casas do bairro onde morava e onde tinha já chegado. Entrando em casa, perguntou:
 
-Que aconteceu?
 
-Foi golo do Brasil!
 
Com a visão, ainda, de uma Vilma carinhosa e, diante daquele alegria contagiante das pessoas, Ricardo sentiu uma vontade enorme de exclamar:
 
-OBRIGADO EU!

 

música: Caetano Veloso-Nature Boy
publicado por Jorge Santos às 06:02
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Sexta-feira, 5 de Setembro de 2008

REALIDADE E FANTASIA

 

 

Quase todos os dias eram dias bons, na minha infância colorida e alegre. Pouco se faziam sentir em mim então, os efeitos do que ia acontecendo na cidade, talvez porque ainda não tinha a percepção dos mais velhos, ou tendo, em cima dos meus oito ou nove anos, dava a volta pelo lado, porque por ali não queria passar. A palavra guerra, turras, regresso, morte, independência, liberdade,  ouviam-se cada vez com mais insistência, mas para nós, os mais pequenos em tamanho e idade que não em inteligência e astúcia, não as queríamos ouvir, queríamos apenas brincar e fazer de conta, fazer de conta que tudo à nossa volta era isso mesmo, um jogo como todos os jogos que nós fazíamos, aqueles que nós inventávamos feitos desta vez por pessoas grandes. Não nos assustávamos nós os miúdos com o aparato militar que ia surgindo um pouco por toda a cidade, por cada bairro, por cada esquina, cada vez víamos mais homens fardados com fardas camufladas como as que eu usava para vestir o meu "action man", e ali estavam muitos "action man" com muitas fardas, muitas caras com muitas cores de pele, uns tinham a cor da minha pele, outros tinham outras cores de pele como muitos dos meus amigos tinham, todos tinham armas a sério,  como nenhum de nós tínhamos. Entre a rotina de um viver incerto e angustiado dos adultos, fazia-se a rotina alegre e feliz dos miúdos com brincadeiras antigas e necessariamente novas, pois podíamos estar alheios ao que se passava, mas não estávamos cegos ao que observávamos. E entre muitas observações novas observamos perto de nós, três bandeiras novas, a juntar à que já estávamos habituados dos livros das escolas e do mastro do palácio do governador. E na observação dessas bandeiras, uma com duas riscas horizontais vermelha e preta com uma estrela amarela no meio, outra se não me engano tinha um sol vermelho e um galo negro, e havia uma terceira que das cores já não me consigo lembrar, logo nos surgiu inspiração para mais uma brincadeira,  foi só o tempo para adquirir o material necessário, canas de bambu, papel celofane, cola e fio "do norte" para num ápice se verem sob o céu de Luanda, bem, pelo menos naquele pedaço de céu sobre as nossas casas, três papagaios a voar bem alto, tentando nós cá em baixo, manobradores habilidosos, conseguir não só que o seu voasse mais alto,  como voasse mais tempo. Anos mais tarde, na cidade onde me encontro agora a escrevinhar estas palavras,  reflectindo no assunto pensei: Que bom seria se deixassem os miúdos decidir as guerras dos homens  em voos de papagaios.
 
Hoje é dia de eleições em Angola. O meu maior desejo é que hoje, se cumpra e instale definitivamente a democracia para felicidade de todo o povo Angolano, e minha, que parte importante de mim será sempre daquele belo país que me viu nascer. E, quem sabe, dentro de uma democracia plena, um dia, eu volte. 
música: Sérgio Godinho-Namoro
publicado por Jorge Santos às 11:17
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Quinta-feira, 4 de Setembro de 2008

DOCE INFÃNCIA

 

 

Faço hoje a reedição de mais um Post perdido que havia publicado em 21 de Junho de 2007, ainda no inicio deste "Conteúdos"

Uma mangueira no quintal dava mangas deliciosas, lembro-me…dos banhos de mangueira que meu pai me dava aos domingos no regresso da praia da contra-costa. O jacto de agua irrompendo sob o calor angolano direito às minhas costas, deliciosa sensação de felicidade, a bicla esperava-me encostada ao tanque ,hoje sem as mãos negras da Susana batendo roupa e tirando o lixo… hoje é domingo e a Susana está com o seu amor a rodopiar pelo salão naquela dança pélvica tão absolutamente africana que todos os domingos acontece no bairro operário…em cima daquela bicla eu pedalava como um herói pela minha rua … tlim tlim e eu cortava a direito pelos jardins daquele bairro com nome de vila… a vila Alice, e os jardins eram as florestas onde me embrenhava para as missões impossíveis e saía vitorioso com mais um par de calças rasgado o ranho que a sinusite não controlava a sair no fim da batalha, os cotovelos esmurrados e , o pensamento , a ultima estratégia do dia ,para poder entrar no meu quartel disfarçado de quarto de dormir sem ter que me cruzar com a alta patente direita de cinco dedos da minha mãe.
Era um tempo inócuo, sem tempo, regra ou relógio que limitasse a existência, era viver absolutamente, a infância plena, plena de mim com todo o meu mundo imaginário. Poderia ter sido assim mesmo, num outro lugar, mas o lugar era aquele, a terra era vermelha, o calor natural, a luz…. 
Aquela luz na minha retina infantil, que um dia retomarei….

 

música: Sergio Godinho-Namoro
publicado por Jorge Santos às 07:02
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Quinta-feira, 21 de Agosto de 2008

O SONHO MAU

 

Os dias corriam normais, encalorados, ensolarados, risonhos, felizes, chuvosos também , momentos em que se deixava ficar sentado nas escadas da entrada com a cadela deitada ao lado, vendo, ouvindo, aquela água forte a desprender-se do céu e a lavar tudo à sua volta. Naqueles momentos fortes a terra parecia fumegar e libertava aquele cheiro doce típico da terra molhada pela chuva. Delicioso. Mas quase sempre era um momento fugaz, logo a seguir, a agua parava de jorrar lá de cima, e primeiro timidamente, depois com mais consistência, os raios do sol surgiam a aquecer a terra, e a devolver à mesma os seus tons naturais. Nesse momento ele assim como todos os miúdos do bairro onde morava apareciam à porta das casas como coelhos saídos das tocas, prontos a continuar as brincadeiras interrompidas pela água do céu. Eram jogos, corridas de bicicleta, fantasias de todo o género em pratica, pois quando se tem sete anos, todos os jogos e fantasias se juntam e resultam sempre, e, principalmente, não terminavam nunca, ou por outra, havia apenas interrupções para dormir e fazer as refeições diárias, isto em férias claro, no período de aulas, a interrupção era maior, mas logo que voltavam ao mundo da fantasia, não perdiam o fio à meada. E se perdessem, não havia problema nenhum, logo se começava outra brincadeira, outra fantasia surgia e o seu reino glorificava.
Era assim passada a sua vida desperta, compreendida entre o acordar e o deitar.
Mas fora dessa vida desperta, havia uma vida de sono, de sonhos, pelo menos assim pensava.
Porém nem sempre a noite de sono era tranquila nem os sonhos sabiam bem. A partir de determinada noite, de determinado sono, de determinado sonho, algo brusco, violento, mau, aconteceu. Perguntando-lhe se sabia o momento em que tudo começou, não se lembra, mas lembra-se de como tudo aconteceu. Lembra-se de como aquele sonho saltou para a sua camita, adormeceu-lhe a boca e a língua ao ponto de não conseguir articular nenhum som, apenas se lembra de deitar muita saliva pela boca. Lembra-se de como aquele sonho lhe prendeu os movimentos da mão direita e da perna direita e lembra-se de querer gritar e não conseguir, de querer correr para o quarto dos pais e não poder, parecia uma eternidade, aquela que ia do começo das malandrices do sonho, até estar envolto nos braços da mãe. Nesse momento e sentido o calor materno junto de si, ficava mais calmo e aquele sonho mau desaparecia, ou por outra ausentava-se apenas, ficava de atalaia, esperava por outra noite, por outro sono, para voltar a aparecer. E Apareceu muitas vezes, de tal forma que mesmo a dormir já o esperava, e quando surgia, começava a dar-lhe luta, tentava não ficar preso nem com a boca com espuma branca, mas ao contrário das fantasias diurnas as nocturnas não tinham o mesmo sucesso daquelas e somente o calor do peito da mãe envolvendo em seus braços conseguia vencer a batalha.
Certo dia, melhor dizendo, certa noite, o sonho mau veio melhor preparado tão bem preparado que o menino deixou de estar a sonhar, ou acordado, e nem a dormir ficou. Aquele sonho mau pôs o menino desmaiado por muitas horas, passou o dia e só quando chegou a noite, o menino acordou, esta fora a batalha mais dura do menino com o sonho mau. Tão Dura que começou a ser observado por uns “Srs. Doutores” que vestiam umas batas brancas e lhe colocavam muitos fios na cabeça que estavam ligados a uma máquina que fazia uns rabiscos para cima e para baixo numa folha de papel que ia deslizando. E de repente, esses rabiscos aumentavam de intensidade e ouvia os “Srs. Doutores” de batas brancas exclamarem: -cá está! E pela primeira vez o menino ouviu o nome do seu sonho mau, e se ouviu bem, mais tarde confirmou-o, o nome era EPILEPSIA JACKSONIANA, um nome pomposo demais para um sonho mau pensei eu. E todas as noites antes de dormir o menino passou a ter uma surpresa para o seu sonho mau com nome pomposo de gente, metade de um comprimido era ingerido antes de deitar criando assim um escudo, não deixando que o sonho mau entrasse de novo nos sonhos bons, até ao dia, uns anos mais tarde, já não tão menino, já mais rapazinho, voltou àqueles que agora sabia serem médicos neurologistas, fez um ultimo, agora já sabia o nome daqueles fios na cabeça, electroencefalograma e os médicos Jorge Furtado e Mário Taborda confirmaram que aquilo que o menino tinha chamado em menino sonho mau, tinha desaparecido e que podia adormecer agora profundamente agasalhado a todos os sonhos. 
música: Bjork- A Child Is Born
publicado por Jorge Santos às 22:21
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Quarta-feira, 16 de Abril de 2008

Foz

 

Na esplanada em Belém , às margens deste Douro do qual meu olhar não saía, dominava-me a  foz dos seus olhos que ansiavam...

 Inevitavelmente e sempre consagrado a estas margens, onde o meu olhar se apazigua, olhava para a foz por entre aspirais de fumo de um cigarro que não parava de saltitar de dedo em dedo e antecipando a pergunta que pressentia sair dos seus olhos, bebo o resto daquela cerveja que há muito transpirava pelo copo e digo:

 

-Mas nós somos felizes! Passamos pela vida com a profundidade dos submarinos sem deixarmos nunca a superfície . Geramos vida e ajudamo-la a crescer e sempre com fome de viver! Neste momento ambos os olhares haviam já saído da foz para profundamente pousarem entre ambos e a subtileza de um gesto seu retêm as minhas palavras e diz quase num sussurro correndo a minha mente num barulho estupendo:

 

-Bem hajas, serei sempre a mulher da tua vida, e não me contento apenas com uma vida!

 

 

 

OBS : Palavras ficcionadas encavalitadas por mim.

 

Foto encontrada nas fotos do Sapo.

 

música: Todo o amor que houver nessa vida-Caetano Veloso
publicado por Jorge Santos às 06:26
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Sábado, 5 de Abril de 2008

ACÁCIAS

 

Africa

  

 

Saudade eterna...

 

Teu merengue,

 

tuas rebitas,

 

teu carnaval!

 

 

 

Luanda!

 

Tão linda é tua baía à noite!

 

Ritmo!

 

Marimba!

 

Kissange !

 

O ressoar rítmico do batuque!

 

Musica nas veias,

 

sangue vermelho cor de café.

 

 

Palavras encavalitadas por mim num momento agudo de saudade.

música: Rui Mingas-Minha infancia
publicado por Jorge Santos às 23:57
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