Quinta-feira, 21 de Agosto de 2008

O SONHO MAU

 

Os dias corriam normais, encalorados, ensolarados, risonhos, felizes, chuvosos também , momentos em que se deixava ficar sentado nas escadas da entrada com a cadela deitada ao lado, vendo, ouvindo, aquela água forte a desprender-se do céu e a lavar tudo à sua volta. Naqueles momentos fortes a terra parecia fumegar e libertava aquele cheiro doce típico da terra molhada pela chuva. Delicioso. Mas quase sempre era um momento fugaz, logo a seguir, a agua parava de jorrar lá de cima, e primeiro timidamente, depois com mais consistência, os raios do sol surgiam a aquecer a terra, e a devolver à mesma os seus tons naturais. Nesse momento ele assim como todos os miúdos do bairro onde morava apareciam à porta das casas como coelhos saídos das tocas, prontos a continuar as brincadeiras interrompidas pela água do céu. Eram jogos, corridas de bicicleta, fantasias de todo o género em pratica, pois quando se tem sete anos, todos os jogos e fantasias se juntam e resultam sempre, e, principalmente, não terminavam nunca, ou por outra, havia apenas interrupções para dormir e fazer as refeições diárias, isto em férias claro, no período de aulas, a interrupção era maior, mas logo que voltavam ao mundo da fantasia, não perdiam o fio à meada. E se perdessem, não havia problema nenhum, logo se começava outra brincadeira, outra fantasia surgia e o seu reino glorificava.
Era assim passada a sua vida desperta, compreendida entre o acordar e o deitar.
Mas fora dessa vida desperta, havia uma vida de sono, de sonhos, pelo menos assim pensava.
Porém nem sempre a noite de sono era tranquila nem os sonhos sabiam bem. A partir de determinada noite, de determinado sono, de determinado sonho, algo brusco, violento, mau, aconteceu. Perguntando-lhe se sabia o momento em que tudo começou, não se lembra, mas lembra-se de como tudo aconteceu. Lembra-se de como aquele sonho saltou para a sua camita, adormeceu-lhe a boca e a língua ao ponto de não conseguir articular nenhum som, apenas se lembra de deitar muita saliva pela boca. Lembra-se de como aquele sonho lhe prendeu os movimentos da mão direita e da perna direita e lembra-se de querer gritar e não conseguir, de querer correr para o quarto dos pais e não poder, parecia uma eternidade, aquela que ia do começo das malandrices do sonho, até estar envolto nos braços da mãe. Nesse momento e sentido o calor materno junto de si, ficava mais calmo e aquele sonho mau desaparecia, ou por outra ausentava-se apenas, ficava de atalaia, esperava por outra noite, por outro sono, para voltar a aparecer. E Apareceu muitas vezes, de tal forma que mesmo a dormir já o esperava, e quando surgia, começava a dar-lhe luta, tentava não ficar preso nem com a boca com espuma branca, mas ao contrário das fantasias diurnas as nocturnas não tinham o mesmo sucesso daquelas e somente o calor do peito da mãe envolvendo em seus braços conseguia vencer a batalha.
Certo dia, melhor dizendo, certa noite, o sonho mau veio melhor preparado tão bem preparado que o menino deixou de estar a sonhar, ou acordado, e nem a dormir ficou. Aquele sonho mau pôs o menino desmaiado por muitas horas, passou o dia e só quando chegou a noite, o menino acordou, esta fora a batalha mais dura do menino com o sonho mau. Tão Dura que começou a ser observado por uns “Srs. Doutores” que vestiam umas batas brancas e lhe colocavam muitos fios na cabeça que estavam ligados a uma máquina que fazia uns rabiscos para cima e para baixo numa folha de papel que ia deslizando. E de repente, esses rabiscos aumentavam de intensidade e ouvia os “Srs. Doutores” de batas brancas exclamarem: -cá está! E pela primeira vez o menino ouviu o nome do seu sonho mau, e se ouviu bem, mais tarde confirmou-o, o nome era EPILEPSIA JACKSONIANA, um nome pomposo demais para um sonho mau pensei eu. E todas as noites antes de dormir o menino passou a ter uma surpresa para o seu sonho mau com nome pomposo de gente, metade de um comprimido era ingerido antes de deitar criando assim um escudo, não deixando que o sonho mau entrasse de novo nos sonhos bons, até ao dia, uns anos mais tarde, já não tão menino, já mais rapazinho, voltou àqueles que agora sabia serem médicos neurologistas, fez um ultimo, agora já sabia o nome daqueles fios na cabeça, electroencefalograma e os médicos Jorge Furtado e Mário Taborda confirmaram que aquilo que o menino tinha chamado em menino sonho mau, tinha desaparecido e que podia adormecer agora profundamente agasalhado a todos os sonhos. 
música: Bjork- A Child Is Born
publicado por Jorge Santos às 22:21
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8 comentários:
De Themis Santos a 23 de Agosto de 2008 às 02:33
quero chegar ao patamar dos seus textos... Mande um beijo para Esmeralda pelo aniversario.
beijos
De Jorge Santos a 23 de Agosto de 2008 às 09:34
Se tiveres o "bichinho" da escrita, chegas lá o resto o enriquecimento vocabular aparece com o acumular de leituras, com a idade. Eu também estou a começar.
Força aí mana!
Beijão
De meldevespas a 22 de Agosto de 2008 às 12:27
Gostei de voltar a ler-te.
Os nossos medos de pequenino são sempre tão grandes e fundos...
Suponho que esse menino agasalhado agora esteja bem?
Beijinho menino Jorge, e bom fim de semana ;D
De Jorge Santos a 22 de Agosto de 2008 às 18:35
Obrigada. Bom fim de semana e um beijinho!
De daplanicie a 22 de Agosto de 2008 às 09:48
Felizmente, o final foi feliz, como em todas as histórias, reais ou inventadas, devia ser.
Cumprimentos
De Jorge Santos a 22 de Agosto de 2008 às 18:34
Fellizmente! :)
Bom fim de semana.
De Sempre seriamente na boa a 22 de Agosto de 2008 às 01:09
Os medos que os meninos todos têm, os sonhos maus, aqueles que jamais se esquecem, mas nós ainda meninos não saibamos como lidar. Aqueles que nos marcam profundamente, mas onde é tão importante o deleite do colo da mãe. Deve fazer, com que o sonho seja menos mau. Ás vezes não o há. Mas o mais importante é concerteza sentirmo-nos agasalhados no sono e nos sonhos todos os dias dos muitos anos.

Beijitos

Lis
De Jorge Santos a 22 de Agosto de 2008 às 08:03
Obrigado Lis!
Beijinho!

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