Quarta-feira, 17 de Novembro de 2010

IDA SEM VOLTA

Falta de tempo e inspiração tem-me levado a deixar o "conteúdos" um pouco abandonado. Por isso vou Fazer a reedição de alguns Posts que mais gostei, até voltar a dar ao "conteúdos" o ritmo que tinha antigamente.

 

Texto escrito para o 6º jogo das doze palavras do EREMITÉRIO, desta vez com sessenta palavras, as doze de cada um dos cinco jogos anteriores.

 

A mão esquerda acendia o isqueiro enquanto a direita protegia, em concha, a ténue chama, de um vento ausente, apenas um gesto de mãos, um hábito consumido nos anos da vida. Com efeito o calor era muito em Fevereiro a sul do equador, e, este Carnaval, estava a ser excepcionalmente quente. Nem a aproximação da noite com seu luar envolvente apaziguava os efeitos diurnos de um sol avassalador.
Com o cigarro preso nos dentes e os olhos semi-cerrados pelo fumo que lhe queimava a retina, abriu as portadas de madeira velha e já quase sem cor naquele velho hotel já não distante do rio, de par em par. O negrume cintilante e envolvente da noite lentamente pousava sobre a cidade. Do edifício mais alto deixava-se escorregar até tocar a rua, descendo por ela, por todas elas até cobrir o cais, os barcos o rio. O Cruzeiro do Sul, lá do alto do céu imenso, inaugurava assim a noite de terça-feira gorda, a ultima noite passada naquele lugar.
Estava na hora de voltar, retomar raízes que um dia fora obrigado a arrancar. Ninguém o obrigava a isso, assim como ninguém o levou a se afastar. Era uma força ou vontade que o impelia e simultaneamente amedrontava, o medo e o anseio de reabrir novamente aquela caixa de chocolates onde escondera todos os sentimentos perdidos…
De braços suspensos, cruzados sobre a cabeça, acompanhava a dança de luzes que surgiam saltitantes entre o néon da noite. Nesse momento surgem das suas costas enlaçando o seu ventre, o envolvente abraço de Alice. Olha de lado para o espelho em cima da cómoda, e, percebe na penumbra, a silhueta do corpo dela colada no seu, despertando morna e languidamente do sono bom. O sono do amor. Vem tomar banho comigo sussurrava Alice no seu ouvido enquanto rodava o corpo num movimento preciso encaixando-se no dele num desejo crescente. Assim caminharam colados enlaçados, encarnados, pelo escuro do quarto, apenas duas sombras de amor se amando sob a água que jorrava do duche, refrescando seus corpos, e retardando a imortal fusão. Ambos se amavam com urgência, em sobressalto, com medo do amanhã chegar, mas chegou, e, de manhã bem cedo, em silencio e lágrimas olhou uma ultima vez para Alice dormindo nua, bela, olhou como se fotografasse, para nunca mais esquecer… até um dia.
No momento em que o avião, sobrevoava a cidade, logo reconheceu aquela cor a inundar seu olhar, estava tudo lá, a baía, a rosácea na igreja onde fora baptizado. Sentia que seu coração nefelibata estava de novo em casa, no seu país.
Mas depois, já com os pés bem assentes no chão, olhava e via, via e olhava de novo não querendo aceitar. A tempestade humana, a loucura, o lodo, a morte, o ostracismo pairavam por todo o lado. Não eram culpadas as pessoas do povo que continuavam apesar de sofredoras, estóicas e alegres, valente e corajosas, sempre dispostas a cada novo dia, a lutar por uma vida melhor. Era como sempre fora, a malha, a teia de usurpadores que continuavam a ocupar despoticamente as cadeiras do poder. Na realidade tudo se resumira a trocar uns por outros, aparentemente diferentes, mas de idêntico recheio. No meio daquele inferno, reencontrou nas escadas da casa que um dia fora a sua, agora gasta e sem cal, o seu velho amigo Abel. Com a ternura das palavras que sempre usara, fez-se de novo seu conselheiro como em menino fazia e entabulou uma conversa, a derradeira entre eles.
-Menino, porque voltou? Aqui nada é o mesmo nas suas recordações, pode andar por aí a procurar traços que façam reviver as suas memórias, mas será um esforço vão. Ouça o meu conselho, faça um casulo onde possa guardar tudo o que um dia aqui viveu, e guarde-o bem junto do coração, pare de vasculhar o passado e aprenda a viver um dia de cada vez. Vá sem pena, mas cheio de esperança, não pense mais “nisto”, não pense mais no velho Abel. Quando a amizade é verdadeira não existe distanciamento possível, pois a verdade desta é o exponente máximo do relacionamento humano. Mas antes de ir faça duas coisas, jogue flores na sua praia favorita, aquela mesma onde ficava vendo-o brincar, por todos aqueles que aqui um dia amou e por aqueles que não desistem de fazer deste país um lugar melhor para viver, e, compre uma tapeçaria da savana, com um leão vigilante debaixo de um embondeiro, para nunca se esquecer quem é nem de onde veio.
Dito isto ergueu o corpo amortecido na bengala e tocando-lhe com o cotovelo disse, venha o cacimbo (orvalho) está a cair e a Susana que hoje está de bom humor, o que nela é muito variável, preparou-nos o jantar e vamos juntos comungar de um dos prazeres da criação feito por suas mãos. A maravilhosa Muamba de galinha…

Filipe obedeceu a Abel foi-se embora sem olhar para trás.
Com a alma do tamanho do mundo, olhou sempre em frente, e mais e mais, e meteu de tanto andar, de tanto ver, o mundo inteiro dentro da alma e era quase feliz.
Mas a sua felicidade deparava-se ainda com uma obstrução, a falta do amor verdadeiro, reconhecido, vivido e sentido. O amor de Alice!
E sem pedir licença, mas seguindo um método e uma linha com determinação, foi buscar para morar o que faltava no seu coração...

Tantos anos passaram na sua vida, não sabe quantos, há muito se esquecera de contar, vive o que tem a viver, por quem tem a viver, com quem tem a viver, com toda a vulnerabilidade. Não há passados, apenas, como sempre, o hoje está presente, só assim, pode recordar o que viveu com um sorriso. E é assim que quer terminar, disso não tem duvida, com um sorriso, ali mesmo onde agora está, um alpendre velho, de uma casa de madeira velha, degrau a degrau bem contados são cinco até ao areal, a 30 metros do mar azul, junto ao pontão que com o seu farol velho mas imponente e vertical, afastam do perigo cada vapor navegando em boa viagem, ao largo daquela “sua” ilha, pequena, mas com muito Sol. Mas isso será num futuro qualquer pois nesse momento cada criança corre pelo areal, são quatro, filhos de filho, e filhos de netas, a pele queimada pelo sol gritando, avô, avô…
A voz de Alice, envolvente, aquele amor erodido que um dia ambos julgavam ter perdido, fê-lo emergir do seu mar de pensamentos, interrompendo suas cogitações:-Filipe meu velho traz as crianças e venham jantar.
.

 

música: Bachianas Brasileiras(Heitor Vila Lobos)-Brandford Marsalis
publicado por Jorge Santos às 19:40
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14 comentários:
De carminho a 21 de Outubro de 2008 às 15:49
O que eu gostava mesmo era de ver tudo isto que tu escreves num livro. Porquê? Porque gosto de livros, porque os levamos para todo o lado, até dormem a nosso lado, quando queremos, podemos guardá-los para sempre, não só na memória mas também em todos os lugares onde queiramos vê-los. É que são lindos de ver, os livros e de cheirar (porque têm odores) e de tocar...
De carminho a 15 de Outubro de 2008 às 09:11
Máximo de 4.300 caracteres e eu não consigo escrever nem um. Li três vezes "Ida sem volta" e fiquei parada a olhar o fundo negro de Conteúdos com tantas imagens na minha cabeça que extravasaram para os meus olhos e foi como se as estivesse mesmo a vê-las. Dei-me conta, de repente, que não tinham ainda inventado, em nenhuma língua, as palavras que eu queria dizer/escrever depois de ler, três vezes, "Ida sem volta". Cientistas, linguistas, literatos, pensadores, filósofos, pedagogos, quiçá, arquitectos, engenheiros, mestres de várias artes, artesãos, ... por favor inventem as palavras que eu quero dizer porque eu quero dizer coisas mas as palavras que há não dizem o que eu preciso de dizer. É mesmo uma ida sem volta porque as palavras vieram até mim e agora estão cá dentro, a causar tanto ruído na minha mente... Não é um incómodo, não, é uma sensação de querer dizer, de querer ter, de querer sentir, de querer ser...
De Jorge Santos a 15 de Outubro de 2008 às 12:49
Beijo.
De carminho a 20 de Outubro de 2008 às 16:27
Errata: onde se lê "e foi como se as estivesse mesmo a vê-las", deve ler-se "é como se estivesse mesmo a vê-las". Beijos.
De daplanicie a 1 de Outubro de 2008 às 21:13
Excelente post. Poesia pura, em prosa!!
De Jorge Santos a 1 de Outubro de 2008 às 22:15
Muito obrigado por tão belo elogio, sendo apenas um aprendiz na arquitectura das palavras.
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Muito obrigado por tão belo elogio, sendo apenas um aprendiz na arquitectura das palavras. <BR class=incorrect name="incorrect" <a>Beijihno</A> .
De benobaptista@sapo.pt a 28 de Setembro de 2008 às 12:38
Seja benvindo ao grupo.
Gostei da participação. Parabéns.
Encontrar-nos-emos mais vezes.
De Jorge Santos a 28 de Setembro de 2008 às 12:46
Muito obrigado.
Encontrar-nos-emos com certeza.
Abraço.
De jawaa a 26 de Setembro de 2008 às 10:30
Vim agradecer a visita e dizer que gostei de ler aqui, pois há recordações comuns.
Passei os olhos por outros posts e deixo os parabéns pelo êxito no tratamento e também pela denúncia de situações nos hospitais que devem ser divulgadas de todas as maneiras. As boas e as más, é justo.
Um abraço
De Jorge Santos a 26 de Setembro de 2008 às 13:44
Olá,
Obrigado pela visita que só agora agradeço devido a problemas técnicos na área de personalização do blog.
Bom fim de semana.
Um abraço.
De mac a 24 de Setembro de 2008 às 21:34
Bem vindo ao Eremitério...vamo-nos "ver" em mais um blog.
De Jorge Santos a 24 de Setembro de 2008 às 21:50
É verdade.
Obrigado Mac.
De Lua de Sol a 24 de Setembro de 2008 às 11:53
Como já te tinha dito... Gosto muito!
Está em tons neutros... tem uma luz de crepúsculo:)
Nostálgico e doce e até um certo erotismo segredado paira ao de leve como se fosse um véu.

Bonito!

Beijão
De Jorge Santos a 24 de Setembro de 2008 às 21:20
Bela imagem!
Obrigado!
Beijão!

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