Quarta-feira, 10 de Setembro de 2008

OBRIGADO

 

 

 Faço hoje a reposição de mais um Post publicado em Agosto do ano passado. Assim, devagarinho, o Conteúdos vai ficando com tudo o que lhe pertençe.

 

OBRIGADO!
 
 
Viajar naquele autocarro, àquela hora da noite, com as ruas completamente desertas, fazia Ricardo sentir-se ainda mais estranho naquela cidade estranha. Era noite de jogo da selecção Brasileira e, quando tal acontecia, as pessoas recolhiam-se, bem cedo, a suas casas para não perderem a transmissão do jogo pela televisão. E, dentro daquele autocarro, ouvia-se, somente, o barulho da chuva batendo nas janelas meio embaciadas.
 
Também Ricardo se dirigia para casa mas por razões diferentes: ia simplesmente para casa após mais um dia, igual a tantos já passados, numa rotina que não tinha desejado mas para a qual contribuíra com a decisão de regressar ao seu país. Era a rotina de quem não tem nada para fazer senão aguardar o dia da partida, com hora marcada.
 
E, naquela monotonia de um autocarro vazio, viajando de noite, numa cidade vazia, aquele "obrigada", que Vilma lhe dissera, momentos atrás, não lhe deixava o pensamento.
 
OBRIGADA!...Porquê?
 
Quando Ricardo chegou a Manaus, sentiu uma alegria enorme pela perspectiva de iniciar um novo viver que marcasse o início de uma etapa, importante, na sua vida; a busca de uma certa libertação e tentativa de auto-realização.
 
A pouco e pouco, porém, essa alegria inicial começou a dar lugar a uma saudade sem fim, saudades, principalmente, de Cristina que tinha ficado longe na distância mas cada vez mais perto no seu pensamento, perto na obsessão que toda a saudade produz.
 
E foi, então, que conheceu Vilma e, à medida em que a ia conhecendo melhor, começou sentindo que uma luz, pequenina, tinha começado a brilhar em seu coração, tornando-o num ser mais alegre.
 
Mas que sentia por Vilma ? Amor?
 
Não, não era amor: era um gostar muito forte, mas sem amor ou paixão, um sentir-se alegre e feliz quando junto dela; um desejo forte de toca-la, abraçá-la e, porventura, beijá-la.
 
"Obrigada!"
 
Naquele fim de tarde estando os dois numa esplanada junto ao rio Vilma com uma voz triste perguntou:
 
-Porque Você vai embora?
-não gosta daqui?
 
Procurando olhá-la nos olhos, Ricardo respondeu fugindo à resposta desejada:
-mas eu gosto daqui. Aqui tenho família, aqui mora você, e você esta aqui comigo…
 
 
 
Vilma ficou olhando, de um modo carinhoso, mas interrogativo, e percebendo a pergunta, que iria ser feita, Ricardo se antecipou:
 
-Mas, apesar de gostar de você, vou voltar, amo Cristina.
 
Sentindo que tinha magoado Vilma, que escutou aquelas palavras olhando, o rio Negro acariciando os últimos raios de sol, Ricardo, entrelaçou os seus dedos nos dela, puxou-a para si e beijou-a, meigamente, no rosto onde uns olhos brilhavam pelas lágrimas a custo reprimidas.
 
"Obrigada!"
 
A chuva cessara e a pequena viagem tinha terminado. E fazendo, a pé, o resto do percurso para casa, Ricardo relembrava aquele percurso que, igualmente a pé, fizera com Vilma da esplanada até a Parada do autocarro e do que ali se passara.
 
Tinham caminhado, todo o tempo, em silêncio e, depois, parados, um em frente do outro, ficaram-se olhando, sem nada dizerem, até que, num impulso, Ricardo a envolveu nos braços e a beijou longamente, num beijo que não queria terminar, mas que a chegada do autocarro pôs fim. Depois, outro beijo, beijo carinhoso e rápido: o beijo do adeus:
 
-Até amanhã, Vilma- e Vilma não deixando de segurar a mão de Ricardo e olhando-o bem nos olhos, apenas respondeu:
 
-"Obrigada!"
 
Pensando, ainda, naquele "obrigada", procurando o sentido exacto da sua significação, Ricardo ouviu uma súbita manifestação ruidosa, de alegria, que vinha das casas do bairro onde morava e onde tinha já chegado. Entrando em casa, perguntou:
 
-Que aconteceu?
 
-Foi golo do Brasil!
 
Com a visão, ainda, de uma Vilma carinhosa e, diante daquele alegria contagiante das pessoas, Ricardo sentiu uma vontade enorme de exclamar:
 
-OBRIGADO EU!

 

música: Caetano Veloso-Nature Boy
publicado por Jorge Santos às 06:02
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4 comentários:
De meldevespas a 16 de Setembro de 2008 às 11:32
Quem lê tem sempre a tendência para pensar numa primeira análise, que o que está escrito é sempre autobiográfico. E nem sempre é assim.
Neste caso, sendo, de facto autobiográfico, devem ter sido tempos bons, porque a cor de alegria que sai do texto, mesmo apesar da chuva, da despedida e da solidão do autocarro, não mente.
Muito bem escrito para não variar, e muito lindo...isto do amor e do gostar e de todas as suas caras, tem muito que se lhe diga.
Beijinhos
De Jorge Santos a 16 de Setembro de 2008 às 17:22
Sem arrependimentos..., muitas vezes pensei como teria sido se tivesse ficado em Manaus, em dez anos, já tinha saído de Angola, me tornado um "tuga " de coração e raça) para de novo no Brasil renunciar a tudo de novo.... Em momentos importantes decisões foram tomadas, mas nunca me arrependi. Assim como me custa a acreditar que fique por aqui, :),
Beijinho.
De Jorge Santos a 12 de Setembro de 2008 às 19:44
Nem tudo que escrevo é autobiográfico , mas neste texto é, apenas alterei os nomes. Foi Um ponto de mudança, de viragem na minha vida, tinha vinte e um anos e estava com meu pai em Manaus, capital do estado do Amazonas! O obrigado mais marcante recebido e dado até hoje.
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Nem tudo que escrevo é autobiográfico , mas neste texto é, apenas alterei os nomes. Foi Um ponto de mudança, de viragem na minha vida, tinha vinte e um anos e estava com meu pai em Manaus, capital do estado do Amazonas! O obrigado mais marcante recebido e dado até hoje. <BR class=incorrect name="incorrect" <a>bjo</A> .
De Paola a 12 de Setembro de 2008 às 18:40
É... Às vezes acontecem coisas... grandes, pequenas. Momentos, instantes. Retalhos de encontros e desencontros que nos constroem... que nos obrigam a agradecer a vida.

Bjo

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